segunda-feira, 19 de junho de 2017

Respiração Como Cultura


Maurício Andrés Ribeiro

Respirar é um ato que todo animal ou vegetal realiza do início ao final de sua vida. Da primeira inspiração ao último suspiro, o corpo interage com a atmosfera. Mas respirar não é apenas um ato natural. A respiração consciente, os vários modos e formas de respirar, o aprender a respirar 
corretamente, transformam esse ato elementar num ato cultural.
Foi durante minha estadia na Índia, nos idos da década de 70, que tomei consciência da importância cultural da respiração. Os antigos iogues desenvolveram a prática de exercícios respiratórios como forma de concentração. Essa tradição desenvolveu técnicas de controle da respiração e modos de inspirar e expirar a energia que mantém a vida e que está presente em toda a natureza, conhecida como prana.
As práticas de ioga utilizam diversas posturas (ásanas) e exercícios respiratórios (pranayamas) para aprimorar o uso do corpo. Um bom controle sobre o corpo ajuda a controlar a mente e a obter maior  profundidade de percepção e conhecimento. Uma atitude básica da meditação é o focar a atenção na respiração, pois quando se observa o movimento do ar para dentro e para fora dos pulmões, deixa-se de pensar no passado ou no futuro e a atenção orienta-se para o momento presente. A consciência do ato de respirar, associada à vibração de um som como o OM (som universal) durante a expiração, acalma o pensamento e a mente. Trata-se de prática que pode ser exercitada cotidianamente nos tempos de deslocamento, nos transportes e salas de espera.
O espiritualismo da cultura indiana se ancora na matéria, vista como manifestação ou corporificação do espírito. Os fundamentos materiais dessa espiritualidade foram testados em milênios de história e deu-se muita atenção a atos elementares. Para a tradição indiana, o próprio universo é criado e extinto de acordo com o ritmo da respiração de Brahma, que, ao expirar ou inspirar, regula os ritmos universais.
Há varias formas de se respirar, cada qual com seus efeitos sobre o corpo, sobre a mente e as emoções. O exercício de ritmar a respiração voluntariamente induz ao equilíbrio físico-emocional e aumenta a capacidade de percepção sensorial e mental.
A boa respiração reduz estresse, hipertensão, depressão, relaxa, ajuda a emagrecer.
Leva a um maior equilíbrio, bem-estar, flexibilidade, saúde. O estado de tranquilidade e de boa irrigação sanguínea que produz pode ser considerado uma preparação para níveis de desenvolvimento espiritual mais elevados, em que há mais percepção, mais consciência, mais harmonia na  movimentação corporal e nos relacionamentos, mais segurança nas ações cotidianas, entre outras virtudes e habilidades. A maior ventilação proporcionada por uma respiração profunda pode alterar o estado corporal e de consciência. Nesse ponto, é oportuno realçar a importância da sobriedade e advertir contra abusos em exercícios respiratórios, e contra práticas como a retenção da respiração e outras manipulações perigosas para a saúde física e cerebral.
Cada atividade humana e estado de saúde se associa a uma forma de respiração. Um músico que toca um instrumento de sopro, como uma flauta, precisa ter fôlego e um controle preciso da respiração e do ar; atletas, nadadores, aqueles que desenvolvem trabalhos físicos, têm atividade respiratória e trocas de oxigênio e carbono mais intensas do que quem vive sedentariamente; a insuficiência respiratória de doentes exige aparelhos para ser compensada com a respiração artificial.
Durante a vida desaprendemos a respirar corretamente. Desenvolver a ciência e a arte de respirar faz parte de uma cultura respiratória fundamental e quase esquecida, pois toma-se esse ato apenas como um dado natural, sem refletir ou compreender sua real importância e suas variações.
Na sociedade contemporânea, além de aprender a ser, a conviver, a conhecer e a fazer, a educação corporal ou física inclui aprender a respirar, aprender a alimentar-se e a se movimentar. A educação do corpo é um fundamento básico para a educação do ser. Isso significa que a reeducação respiratória é tão importante quanto a educação dos sentidos, a tomada de consciência sobre a cultura alimentar e outras formas de educação essenciais para a vida individual e coletiva.
A civilização indiana foi a que mais se aprofundou nessas ciências e artes e que as comunicou de forma compreensível, construindo um patrimônio intangível que vem sendo revalorizado devido aos benefícios práticos que proporciona.
A pessoas de minha relação que se entediam quando não têm nada para fazer, costumo dizer:
“Respirem...”
Procuro assim valorizar esse ato vital, básico, fundamental para a vida. Mas admito que esse fato desperta admiração ou curiosidade, especialmente entre aqueles que ainda não tomaram consciência da respiração como um ato cultural.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O ciclo da água


Maurício Andrés Ribeiro



Figura: Ciclo da água. Fonte: USGS

 O ciclo da água na natureza compreende várias etapas. Aquecida pelo calor do sol, a água de superfície evapora de oceanos, mares, rios e lagos. Ao se condensar, ela se precipita na forma de chuva, neve ou granizo; escoa na terra, formando rios, lagos, mares e oceanos; uma parte se infiltra no solo e alimenta os lençóis freáticos e os aquíferos subterrâneos. Ela tem fluidez e capacidade de transformação e permeia as demais esferas da natureza, na Terra. A hidrosfera contém a água doce, salgada, de superfície ou subterrânea.
Ela está na litosfera, embebida como água subterrânea nos solos; em contato com o calor no interior quente da terra vem à superfície nos geigers e nas estâncias de águas quentes que trazem água aquecida da pirosfera.
A água está presente na atmosfera, na umidade do ar, nas nuvens, que levam para longe essa umidade, que se precipita na forma de gotas, granizo ou neve.
A água está presente na biosfera, que habita uma fina membrana na superfície do planeta. O ciclo da água passa pelos seres vivos. Está na seiva dos vegetais, nos humores dos corpos animais e humanos. Cerca de 70% do peso de um ser humano é composto de água. As plantas a sugam do solo e devolvem à atmosfera por evapotranspiração a água existente em sua seiva. A floresta amazônica é uma grande bomba que emite água para a atmosfera, conforme mostra o cientista  Antonio Donato Nobre ao tornar claro que a seca no sudeste e no centro-oeste brasileiro está relacionada com o desmatamento.
Fonte: Árvore, ser tecnológico. Creative commons


Fonte: Árvore, ser tecnológico. Creative commons

A quantidade de água existente nos oceanos, nos mares, nos rios, na atmosfera, nos seres vivos, no interior da terra foi quantificada por Igor Shiklomanov, bem como a sua composição em termos de águas doces, salobras e salgadas e em termos do estado físico em que se apresenta.
Se a quantidade total de água é praticamente constante (ela pode ser alterada quando do choque com nosso planeta de algum corpo celeste, um cometa etc, composto de gelo e água) a sua distribuição no estado líquido, sólido ou gasoso é variável em função de mudanças do clima.
 A água é uma substância da natureza muito sensível a variações de temperatura e por isso, é essencial na adaptação às mudanças climáticas. O ciclo da água sofre as influências do que ocorre com os ciclos biogeoquímicos tais como os do carbono, do nitrogênio, do fósforo, do enxofre.  Eventos críticos tais como secas e estiagens, enchentes e inundações, furacões, tempestades tropicais vêm se tornando mais frequentes e intensos à medida em que ocorrem mudanças no clima.